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Haiti: um milhão de pessoas morrendo lentamente

Nove meses depois, o Haiti continua como se o terremoto tivesse acontecido no mês passado. Apenas 2% do entulho foi removido, só 13 mil abrigos temporários foram construídos. Só 15% da ajuda mundial prometida por diversos países e organizações chegou até agora ao país.

“Se a situação piorar, um pouco que seja”, diz Wilda, uma mãe haitiana sem abrigo, “não sobreviveremos.” À sua volta, mães e avós concordam abanando solenemente a cabeça.

Estamos numa “tenda” onde o calor é abrasador, com um grupo de mulheres que tentam sobreviver com a família, num parque público. O parque que cerca toda a zona das traseiras do Palácio Nacional do Haiti, tem ao centro a estátua régia de Alexandre Petion. É agora a casa de 5 mil pessoas desalojadas na sequência do terramoto de janeiro de 2010. Nove meses depois do tremor de terra, mais de um milhão de pessoas continua sem casa no país.

O Haiti continua como se o terremoto tivesse acontecido no mês passado. Visitei Port-au-Prince pouco tempo depois do terremoto e a maior parte da destruição que testemunhei então mantém-se nove meses depois.

A Associated Press dá conta que apenas 2% do entulho foi removido, só 13 mil abrigos temporários foram construídos. Nem um centésimo da ajuda prometida pelos EUA para a reconstrução, chegou ao Haiti. Nos últimos dias os EUA anunciaram que iriam aplicar 10% do 1 bilhão de dólares da ajuda prometida à reconstrução. Só 15% da ajuda mundial prometida por diversos países e organizações chegou até agora ao país.

Com outros advogados dos CCR, MADRE, CUNNY Law School, BAI e do Institute for Justice and Democracy in Haiti encontro-me encolhido, apertado sob desbotadas lonas cinzentas estampadas com a expressão Ajuda dos EUA. Outras lonas azuis estão pregadas ao chão com estacas, fazendo paredes. Ainda não é a estação quente mas o boletim meteorológico informa que o termômetro vai atingir os 46º.

O chão é de terra batida, amolecida por uma chuva recente. A nossa guia trabalha numa ativa e popular organização de mulheres, a KOFAVIV1, que que está trabalhando com mulheres de muitos acampamentos e que encoraja as residentes a contarem-nos as suas histórias.

Ana tem sete filhos. O que ela gostaria mesmo era de ter uma tenda. Ela e a sua família vivem num pequeno pedaço de terra batida de 1 metro por 1 metro. Amarraram-se folhas a bocados de madeira para proteger do sol. Manga de plástico forra o chão. Quando chove, todos os seus pertences ficam encharcados. Mendiga todos os dias por comida.

Teresa tem três filhos de 12, 11 e 9 anos. Vive no acampamento desde o tremor de terra. Há algumas semanas, quando saiu para ir buscar um balde de água, foi agarrada e violentada por um grupo de homens. Antes do terramoto, trabalhava como vendedora de rua, mas agora não tem dinheiro para comprar os produtos para vender. Reza todos os dias, por ajuda.

Carolina vivia com o marido e três filhos num apartamento na baixa de Port-au-Prince.

O sismo levou-lhe o marido e deixou o resto da família sem teto. Foi violentada no primeiro acampamento onde esteve instalada. Quando se mudou para outro, foi de novo violentada e passou a lutar ao lado da KOFAVIV. Ela e outras mulheres montaram um esquema de alerta por apitos e sinais de luz para se protegeram umas às outras. Pressionaram a polícia a prender. A sua vida está agora em perigo porque os violadores a conhecem, e é vulnerável.

Ouvimos dezenas de outras mães e avós – Alana, Beatrice, Celine, Marcie, Rene, Wilda e outras. Eis o que elas nos contam.

Não há eletricidade nos campos de desalojados. Alguns têm postes de iluminação que funcionam de vez em quando. Outros não tem iluminação nenhuma.

Não há comida. As crianças passam uma fome horrível. A ajuda alimentar acabou em abril e nada surgiu em sua substituição. As autoridades cortaram a alimentação para que as pessoas abandonassem os acampamentos, mas para irem para onde?

É difícil encontrar água. Para as pessoas do Parque Petion, a água é distribuída por um caminhão em um sítio central, um bloco ou dois adiante, no meio de vários acampamentos. Milhares de pessoas fazem fila duas vezes por dia para conseguir água antes que ela se esgote. Num outro acampamento que visitamos no domingo, o acampamento Kassim, centenas de famílias estavam sem água e não estava prevista nenhuma distribuição, pelo menos até segunda-feira. Rapazes e moças fazem um ajuntamento em torno de um cano, alguns blocos mais adiante, tentando levar alguma água em baldes com o símbolo da Oxfam gravado.

As pessoas tossem, fungam, e têm os olhos a lacrimejar. Os bebês estão quase sempre quietos e silenciosos. Há pessoal médico variado, mas em geral só os doentes mais graves são observados, porque há muitos precisando de auxílio. Nos acampamentos maiores agora já há casas de banho, mas não as suficientes. O escoamento das águas é um grande problema especialmente agora, durante a estação das chuvas.

Não é possível manter as crianças dentro das tendas sufocantes. Brincam no meio da lama. Gostariam de voltar à escola, mas não há dinheiro.

A segurança é um problema enorme. Menos de uma dúzia dos mais de mil acampamentos tem vigilância durante a noite. Durante o dia, a polícia ainda surge de vez em quando e faz-se notar nas redondezas, ou é possível encontrar a força militarizada MINUSTAH da ONU patrulhando a área. Mas à noite as forças de segurança desaparecem. Com pouca ou nenhuma iluminação, dezenas de milhares de estruturas de folhas e paredes de lona tornam-se um alvo convidativo para ladrões e gangues de mal-feitores. A violência sobre mulheres e moças generalizou-se. As mulheres que têm de sair à noite para ir às casas de banho são atacadas. Algumas falam em não deixar nascer os bebês que resultam da violação. Outras não o fazem pela crueza do aborto. Quando vão à polícia pedir para que investigue, os agentes pedem-lhes dinheiro para gás. Mesmo aquelas que pagam à polícia não veem qualquer resultado disso. Reina uma sensação de impunidade.

Estima-se que existam 1.300 acampamentos de pessoas sem casa no Haiti. Os sem-abrigo vivem, literalmente, onde quer que seja. Há pessoas acampadas no meio de ruas. Constroem-se cabanas ao longo das ruas. Em cada parque, pátio de escola ou terreno de estacionamento, parece haver gente vivendo debaixo de tendas e alpendres de folhas.

As famílias mais afortunadas vivem em modestas tendas de plástico. As mais recentes são azul forte com bandeiras vermelhas com estrelas dentro – oferecidas na passada semana pela China. As menos afortunadas, e são muitas, vivem debaixo de folhas secas amontoadas entre estacas de madeira feitas com galhos de árvore. Dentro dos acampamentos há pequenas parcelas de terra batida – de poucos metros de largo. As tendas e choupanas estão colocadas lado a lado, separadas por alguns centímetros de distância.

Estão começando os despejos. A Igreja está empurrando as pessoas para fora das suas propriedades.

As escolas que estão reabrindo fecham as torneiras da água às pessoas acampadas nos terrenos de jogos. Algumas assumem posições de autoridade dizendo abertamente que as pessoas devem ser forçadas a sair dos campos. Mas apenas 13 mil abrigos temporários foram construídos e ficam demasiado longe da família, da escola, do emprego e dos cuidados médicos. Não há lugar para onde ir.

A ONU, que é quem governa efectivamente o Haiti em conjunto com os haitianos e os Estados Unidos, organiza quase diariamente reuniões para coordenar a resposta a dezenas de questões como segurança, alimentação, água, reconstrução e violência sexual. Defensores dos direitos humanos em Port-au-Prince queixam-se que nenhuma dessas reuniões é conduzida em kreyol, a língua do povo haitiano.

No entanto, mantém-se a esperança. As mães e avós haitianas que fomos ouvir estão a lutar pelas suas vidas. A KOFAVIV e o BAI2, e outras organizações populares de direitos humanos, denunciam, manifestam-se, levam a educação aos acampamentos e fazem trabalho conjunto de luta pela justiça social.

Durante a chuva torrencial de sábado, dezenas de pessoas reuniram, sentadas em cadeiras dobráveis, sob o beiral da varanda da frente do BAI para discutir o que fazer para conseguir que os EUA, a ONU, o Haiti e as ONG cumpram a sua missão.

Juntas a pessoas têm uma chance. Tal como nos disse uma mulher que faz trabalho contra a violência, “se for apenas uma mulher contra um homem, talvez o homem vença. Mas se a mulher usar um apito para alertar outras mulheres e outras mulheres acorrerem, talvez o homem veja que vai perder e fuja”.

Entretanto, Wilda e um milhão doutros haitianos estão morrendo lentamente de fome, doença, falta de segurança e negligência. Nove meses depois do terramoto.

Bill Quigley é diretor do Centro de Direito Constitucional e professor de Direito na Universidade Loyola em Nova Orleans (EUA)

Retirado de Information Clearinghouse. Tradução de Natércia Coimbra para o Esquerda.net.

1 Komisyon Fanm Viktim pou Viktim, The Commission of Women Victims For Victims (NT)

2 BAI – O Bureau des Avocats Internationaux no Haiti é uma secção do Institut for Justice & Democracy in Haiti (IFJD`H)



Archivado en: cotidiano, haiti

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